top of page

A ação mágica do inconsciente

  • Foto do escritor: Hudson  de Pádua Lima
    Hudson de Pádua Lima
  • 28 de nov. de 2023
  • 4 min de leitura

Na terapia junguiana privilegiamos muito o papel do inconsciente na vida do analisando/paciente. A maioria das pessoas não abre espaço para que essa parte possa atuar em sua vida consciente e ela só aparece quando é "tarde demais", já na forma de sintoma. Uma minoria, por outro lado, já tem esse contato com o inconsciente e até o romantiza, esperando passivamente que ele tudo lhe proveja. São dois extremos e nenhuma dessas atitudes é a ideal.

O inconsciente é uma dimensão da natureza e, como tudo na natureza, é amoral. Ele não é bom nem mau, apenas é. É por isso o Ego deve sim ter uma grande participação no gerenciamento de nossas vidas, pois é ele, ou seja, a consciência, que vai filtrar e transpor para o plano prático aquilo que é possível e desejável para seu desenvolvimento. O ego negocia com o inconsciente, chegando a um meio termo satisfatório para ambos.

Porém, muitas vezes é do inconsciente que, de fato, brota a ajuda mágica e inesperada em situações para as quais o ego já havia esgotado seus recursos. Dizemos que o inconsciente é constelado - ou seja, ativado - e a "magia" acontece, transformando radicalmente a cena.

Na fantasia e ficção, a magia e os seres mágicos representam as forças e os agentes do inconsciente. Chamamos de magia tudo aquilo que não conseguimos explicar e que acontece espontaneamente, como um milagre. E é exatamente isso que o inconsciente é: desconhecido e autônomo. Desconhecido porque, por definição, não temos consciência a respeito de seus conteúdos e autônomo porque, estando à parte da consciência, esses conteúdos agem à revelia de nossa vontade.

Então, sintetizando: a consciência é limitada e o inconsciente, sozinho, potencialmente perigoso e desgovernado. Como resolver esse impasse? Jung responde: função transcendente! Trata-se de uma operação psíquica na qual consciente e inconsciente se encontram e geram um produto novo, algo que não existia em nenhum dos dois campos previamente. Este produto é um símbolo: o inconsciente provê a imagem e o consciente a imbui de sentido, de modo que ele atua como uma ponte entre os dois mundos, mantendo a comunicação e o fluxo entre eles. Nesse estado dinâmico e criativo a personalidade encontra aquilo que é necessário para prosseguir em seu desenvolvimento.

Incapaz de controlar o inconsciente, o papel do ego é estar de prontidão, atento e receptivo àquilo que lhe será apresentado. É como observar o céu noturno, sabendo que muito provavelmente será possível, em algum momento, avistar uma estrela cadente. Invariavelmente ela passará, mas cabe ao observador estar atento para registrar o momento e "fazer um pedido", caso contrário, ela apenas seguirá sua trajetória, alheia à quaisquer expectativas ou desejos que se fizessem a seu respeito, como já faria de todo modo.

Trago outro exemplo: em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, ainda no início da história, Harry foge da casa dos tios depois de acidentalmente fazer a tia virar um balão. Ele se vê sozinho e indefeso, à noite, sem saber o que fazer ou para onde ir. Para piorar, de repente surge à sua frente um cachorro preto ameaçador, rosnando e preparando-se para atacar. Eis a situação insolúvel e paralisante para a qual o ego não tem nenhum recurso disponível. Harry poderia ficar paralisado ou tentar inutilmente fugir, ao invés disso, porém, mesmo sem ter a mínima ideia do que fazer ou qual feitiço poderia usar, ele saca a varinha e aponta para o cão. Instantaneamente materializa-se à sua frente o Noitibus Andante, um ônibus mágico para bruxos. Não só o cão fugira, como agora Harry teria um meio de voltar para o mundo mágico em segurança. A solução fantástica parece ter caído do céu, mas há uma explicação. O Noitibus Andante é invocado por qualquer bruxo em território britânico que aponte a varinha em direção à rua. Embora Harry não soubesse disso, bastou sua prontidão e coragem para acionar o mecanismo mágico preexistente na hora de sua maior necessidade.

O Noitibus é um ótimo exemplo do que caracteriza um símbolo: parece um ônibus relativamente normal do mundo trouxa (reino do ego), mas viaja à velocidades altíssimas e se adapta magicamente às necessidades do trânsito (reino mutável do inconsciente), além de ser invisível para os não bruxos. Porém, é um transporte que transita apenas no entremundos, pois é impensável no mundo dos trouxas e é dispensável no mundo mágico, que dispõe de várias outras opções mais eficientes. É, portanto, um psicopompo, mediando a relação entre os dois mundos e possibilitando o fluxo entre eles. Assim também deve ser um verdadeiro símbolo: ele é vivo, polissêmico e dinâmico. Não o entendemos completamente, nossas interpretações sobre ele não se esgotam e ele continua nos afetando de vários modos. Quando ou se isso não acontece, tem-se um signo, não um símbolo.

Diante de uma situação psíquica insustentável e insolúvel, Jung afirma que “se o indivíduo mantiver por tempo suficiente dentro de si a tensão de opostos, pode-se produzir uma coisa fantástica e muito nova, que pertence a nenhum dos dois opostos em si mesmos e que, contudo, é a união de ambos”. Trata-se de algo impensável, inatingível por meios puramente lógicos e que apenas a psique pode prover. É importante destacar novamente o papel essencial da consciência nesse processo: os meios pelos quais o inconsciente atuará e dar-se-á o fenômeno da função transcendente só poderão ser aqueles dentro do campo do possível. Eventos mágicos, literais, senão impossíveis, são extremamente improváveis, então o ego deverá trabalhar no sentido de propiciar e reconhecer situações mais prováveis para que aquilo que espera possa acontecer.


Hudson de Pádua Lima

Psicólogo 06/165910

São Carlos (SP)

 
 
 

Comments


2025 por Psicólogo Hudson P. Lima.

  • Instagram
bottom of page