Animus e Anima, masculinidade e feminilidade como polaridades psíquicas
- Hudson de Pádua Lima
- 25 de out. de 2024
- 6 min de leitura
Incompreendidos e polêmicos, estes são dois dos conceitos mais desafiadores concebidos por C. G. Jung em sua Psicologia Profunda. Trata-se do par Anima e Animus. A definição mais superficial é de que são as contrapartes sexuais inconscientes do indivíduo: a Anima é a feminilidade inconsciente do homem e o Animus é a masculinidade inconsciente da mulher. Mas além de simplista, essa definição não abarca a totalidade desses arquétipos e traz uma série de problematizações relacionadas a questões de gênero.
Por mais genial que Jung tenha sido, ele não ficou incólume à influência do pensamento de sua época e hoje esse anacronismo precisa ser pensado criticamente e atualizado para o nosso contexto presente. Naquela época (século XX), os papéis de gênero eram rígidos o suficiente para poder-se afirmar facilmente dizer o que era masculino e o que era feminino. Hoje há muito mais liberdade individual e coletiva a esse respeito e o gênero opera mais como um espectro do que como categoria.
Pra começar, Anima e Animus não são instâncias individuais da psique de cada um, como os complexos, por exemplo. Não é tecnicamente correto dizer "minha Anima" ou "meu Animus", embora falemos assim na prática para facilitar a comunicação. Anima e Animus são arquétipos do inconsciente coletivo, duas qualidades ou forças que operam em polaridades opostas e complementares, como o Yin e Yang do Taoísmo.
Na obra de Jung, muitas vezes ele utiliza os termos Eros e Logos de forma intercambiável com Anima e Animus, respectivamente. Isso já lança uma luz mais ampla sobre os conceitos, ultrapassando a simples questão de gênero. Eros ("Amor", em grego) é a força de união e atração, de polaridade passiva, que promove conexões entre as coisas. Logos (do grego, "Razão" ou "Pensamento") é a força ativa e racional de discriminação e ordenação, diferenciando em unidades e conceitos o que antes estava agrupado e indiferenciado. Também são correlatos à Anima e Animus os termos Alma e Espírito, os quais correspondem, na realidade, à tradução dessas palavras a partir do latim. Alma faz menção aos níveis sensível e sensorial da subjetividade, enquanto Espírito corresponde ao nível intelectual e intuitivo.

Na Psicologia Analítica, todos os conceitos e processos psíquicos são pensados como pares de opostos complementares. Assim, poderíamos continuar com uma lista infinita de adjetivos análogos à Anima e Animus, pois eles se referem, de forma muito ampla, à natureza dual da psique.
A linguagem original da psique é constituída por imagens, um arcabouço infinito de símbolos compartilhado por toda a humanidade, com nuances e variações ao longo do tempo e entre as diferentes culturas. Dessa forma, para um homem, a imagem que lhe complementa é a de uma mulher e vice-versa, independente de orientação sexual, pois isso é anterior à constituição individual. Para homens gays, por exemplo, a Anima não será a princesa indefesa a ser resgatada da torre do castelo ou a femme fatale das fantasias eróticas, mas poderá ser projetada nas figuras das divas pop.
Dessa forma, apenas por convenção, continua-se a atribuir a Anima como instância psíquica inconsciente de indivíduos identificados com o gênero masculino e Animus para aqueles identificados com o feminino. A função psicológica de ambos é a mesma para qualquer gênero: conexão e adaptação junto aos conteúdos do inconsciente coletivo. Anima e Animus são guias interiores para a profundidade psíquica pessoal e transpessoal, operando de forma compensatória à Persona, cuja função é adaptar o indivíduo para o mundo externo e a vida social.
A imagem primordial de Anima e Animus que se forma na psique individual sofre grande influência do complexo materno ou paterno, respectivamente. A mãe será, para o menino, a primeira experiência do feminino, da alteridade de gênero e da polaridade, assim como o pai o será para a menina. É por isso que, na vida adulta, quando nos apaixonamos e (necessariamente) projetamos nossa Anima ou Animus no parceiro, muitas vezes essa pessoa apresenta flagrantes semelhanças com uma de nossas figuras parentais.
Ainda na infância, nossos pais (ou figuras parentais) mediam nossa experiência não só com o mundo externo, mas também com o interno. Eles nos ajudam a discernir que emoções estamos sentindo, as coisas de que gostamos e não gostamos, a entender o que é "real" e o que não é, e assim por diante. Então, os pais atuam como intermediários junto ao consciente e ao inconsciente coletivo, são nossos guias no processo de formação de nossas próprias psiques. Já adultos, precisaremos exercer essas funções por nós mesmos, revestindo-nos de várias personas para atuar no mundo externo e recorrendo a Anima/Animus como guias para o mundo interno (o que acontece principalmente nos sonhos, onde essas figuras estão quase sempre presentes).
Porém, o jeito mais fácil e direto de entrarmos em contato com os conteúdos psíquicos é através do mecanismo da projeção. Atribuímos a um outro qualidades e características que nos pertencem, mas que estão inconscientes e ainda não foram integradas ao Eu. Essa falta que nos é intrínseca converte-se justamente na atração irresistível que sentimos pela pessoa alvo de nossa paixão, a qual de fato tem essas características, mas em grau muito menor do que imaginamos em nossa idealização. A paixão promove esse aprofundamento radical na interioridade emocional, experiência que às vezes não sentimos antes apenas com as projeções de Sombra.
Quando se fala que alguém tem um "tipo" pelo qual mais se atrai, que tem um dedo podre ou algum tipo de padrão nos relacionamentos amorosos, estamos justamente nos referindo às suas projeções de Anima ou Animus. Continuamos a repetir esses padrões até tomarmos consciência dele e começarmos a integrar os seus conteúdos psíquicos relacionados. A união amorosa não deveria ser subterfúgio para preencher nossas lacunas de desenvolvimento psicológico. Se sempre me atraio por pessoas refinadas e intelectuais, preciso buscar e reconhecer em mim mesmo esse potencial. Ou, se me atraio por pessoas frias e insensíveis que sempre me frustram, devo tomar ciência de que não sou apenas vítima e que, dadas as circunstâncias, eu também posso ser aquele que negligencia e abandona.
A Anima e o Animus podem ter essas características "negativas" enquanto ainda estiverem misturadas com a nossa Sombra pessoal. De fato, no inconsciente, tudo é misturado e indistinto (justamente por isso que é inconsciente). Mas usamos conceitos e descrições de forma pedagógica, porque é útil relacionarmo-nos com uma parte de cada vez. A natureza essencial dessas figuras não é boa nem má, pois o inconsciente é amoral. Jung dizia que o trabalho com a Sombra era a primeira iniciação, que consistia no confronto com os conteúdos do inconsciente pessoal, a camada mais superficial do inconsciente, onde estão todas aquelas coisas que poderíamos ser, mas renegamos. Já o trabalho com a Anima ou o Animus seria a Grande Obra, o desafio maior no processo da individuação, pois essas figuras conduzem o indivíduo aos potenciais infinitos do inconsciente coletivo e à necessidade de integração dos opostos como forma de realizar nosso destino.
Apesar de serem os nossos guias, não devemos depositar toda a nossa fé no Animus ou na Anima, pois eles vêm de outro nível da existência e seus projetos para nós podem não ser exatamente benéficos ou viáveis. O ego sempre terá o papel de reflexão crítica e ética junto a essas instâncias e conteúdos e será o agente ativo da ação no mundo concreto, negociando entre o ideal e aquilo que é possível.

De fato, o inconsciente se realiza através do Ego. O Ego é o agente do Self na materialidade. O Self é o nosso "Eu Superior" e a totalidade da psique. Entre a pequenez do Ego e a infinitude do Self há uma enorme distância. É justamente nesse intermédio que atua a Anima/Animus. É a Fada Madrinha ou o Cavaleiro Galante que conduzem o Herói até o Castelo, o Tesouro Escondido ou o item mágico buscados com tanto anseio. São eles que auxiliam na batalha contra a Sombra e dão o Elixir de Cura para o Herói exaurido se recuperar e tornar-se aquilo que ele deve ser. É o príncipe ou princesa que se casa com ele no casamento alquímico e que o consagra como Rei ou Rainha, de cuja união nasce a sua Obra.
Assim, a Anima e o Animus constituem figuras internas da psique que, apesar de serem arquétipos do inconsciente coletivo, assumem formas particulares para cada indivíduo, de acordo com sua cultura e biografia pessoal. O engajamento consciente entre o Ego e a Anima ou Animus faz-se necessário como parte processo de individuação, pois os aspectos inconscientes mais profundos e desafiadores são apresentados e/ou vivenciados através deles, os quais nos conduzem cada vez mais rumo à totalidade psíquica e a uma vida mais consciente, integrada e balanceada.
Hudson de Pádua Lima
Psicólogo 06/165910
São Carlos (SP)
Comments